sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Anexo “4”

Nossa contestação à hipótese do “comportamento mimético” no “moderno capitalismo bursátil” 

Prosseguindo em nossa abordagem parece-nos oportuno a leitura do seguinte fragmento de texto encontrado na literatura técnica de autoria de André Orléan: 

[...] As we will see later in connection with financial markets, a propensity to wild swings, both upward and downward, is the direct expression of mimetic behavior. (18) 

Tradução: 

[...] Como veremos mais adiante em relação aos mercados financeiros, a propensão a oscilações excessivas, tanto para cima quanto para baixo, é uma expressão direta do comportamento mimético. (18) 

Entretanto, iremos discordar da inteligência contida no fragmento de texto acima. A nosso ver, a hipótese sobre a origem do surgimento das “bolhas especulativas” em Bolsa de Valores sustentada por Frédéric Lordon é àquela que melhor se aproxima daquilo que ocorre na realidade. Segundo Lordon, o surgimento de “preços de mercado” extravagantes (“bolhas”) nas Bolsas de Valores se assemelha àquilo conhecido por “pirâmides financeiras”, ou “Tendências Ponzi dos Mercados”, como podemos ler no conceito de “pirâmide financeira”, antes mencionado. 

Reforça nossa discordância acima sobre a hipótese do “comportamento mimético” o seguinte fragmento de texto encontrado na literatura técnica: 

[...] La croissance de la sphère financière et des revenus qu’elle procure n’est possible qu’en proportion exacte de l’augmentation de la plus-value non accumulée, et l’une comme l’autre admettent des limites, qui ont été atteintes.(22) 

Traduzindo: 

[...] O crescimento do setor financeiro e dos ganhos que este proporciona só é possível na proporção exata do aumento da mais-valia não acumulada, e um, como o outro, admitem limites que foram atingidos. (22) 

Acima encontramos a expressão “admitem limites que foram atingidos”. Tal expressão contrasta com a inteligência contida no antes mencionado fragmento de texto de autoria de André Orléan: “[...] a propensão a oscilações excessivas [...] é uma expressão direta do comportamento mimético.” (18) 

Neste sentido, parece-nos que André Orléan se esqueceu de algo que ele próprio disse: 

“[...] o fato de um indivíduo ter a liberdade para vender um título sempre que desejar existe apenas em virtude de um compromisso implícito por parte da comunidade financeira como um todo de manter a totalidade dos títulos no longo prazo.” (18) 

Entretanto, a leitura e interpretação do fragmento de texto acima fortalecem nossa sustentação de que o “hodierno capitalismo bursátil” se equipara a uma “pirâmide financeira” e/ou uma “conspiração”. Assim, o “[...] compromisso implícito por parte da comunidade financeira como um todo de manter a totalidade dos títulos no longo prazo” significa que àqueles que mantêm a “[...] totalidade dos títulos no longo prazo” carregam um pesado fardo. Deste modo, se encontram àqueles participantes do mercado que “mantêm em carteira” títulos que têm por “valor intrínseco” valores bem inferiores àqueles do “preço de mercado”. Neste sentido, devemos relembrar que prevalece nos mercados bursateis uma oferta “não-concorrencial”. Entretanto, tal “oferta não-concorrencial” contraria a “hipótese dos mercados eficientes”. 

Permite-nos ilustrar tal afirmação o contraste entre dois fragmentos de texto encontrados na literatura técnica. Neste sentido, em primeiro lugar, encontramos na literatura técnica o seguinte fragmento de texto: 

[...] It stands to reason that the greater the present dividends and their rate of increase, the greater the value the stock; thus, differences in growth rates are a major factor in stock valuation. (48) 

Traduzindo: 

[...] É óbvio que quanto maiores forem os dividendos atuais e sua taxa de crescimento, maior será o valor da ação. Assim, as diferenças entre as taxas de crescimento são o principal fator na avaliação de uma ação. (48)

Em segundo lugar, encontramos na literatura técnica o seguinte fragmento de texto:

[...] eles exigem que a atividade dos grupos nos quais eles detêm ações seja voltada para dois objetivos: manter as cotações das ações no nível mais elevado possível e manter a maximização dos fluxos de dividendos. (30)

Embora ambos os fragmentos de texto acima mencionados objetivem a maximização dos fluxos de dividendos saltam aos nossos olhos a total diferença entre si, do espírito destes. Em outros termos, é total a incompatibilidade entre a maximização artificial do fluxo de dividendos, mencionada no segundo fragmento de texto acima, com àquilo que seria o verdadeiro objetivo dos dividendos, antes mencionado.

Neste sentido, o mercado, segundo o filósofo francês Dany- Robert Dufour, “seria a única verdadeira realidade no mundo de ficção dos homens”. Assim, em seu livro, O Divino Mercado (46), ao se referir ao Mercado, Dufour, aduz: “ELE POSSUI A ONIPOTÊNCIA, CONTANTO QUE O DEIXEM REALMENTE AGIR”. Ou, ainda, quando declara: “NADA DEVE PODER ENTRAVAR O EXERCÍCIO SOBERANO DESSA FORÇA”.

Antes vimos que o “moderno capitalismo bursátil” pode ser equiparado a algo que tem um tempo limite; em outros termos, tal observação permite-nos concluir que o “moderno capitalismo bursátil” pode ser equiparado a uma “pirâmide financeira”, pois as “pirâmides financeiras” têm um tempo de vida limitado. Em contraste, o “comportamento mimético” sugere algo sem limites, algo sem comprometimento não apenas com o tempo, mas igualmente com o “valor intrínseco”. Ademais, a afirmação de que “[...] um compromisso implícito por parte da comunidade financeira como um todo de manter a totalidade dos títulos no longo prazo” permite-nos sustentar que o “hodierno capitalismo bursátil” se equipara a uma instituição social que eventualmente terá um fim.

Em síntese, nossa demonstração mostra a insustentabilidade da hipótese do comportamento mimético no “moderno capitalismo bursátil”. Reforçam nossa sustentação duas hipóteses de autoria do próprio Orléan: (1) a Bolsa de Valores não serve para avaliar os títulos bursáteis; (2) a Bolsa de Valores não financia a acumulação. Assim, por exclusão chegamos à conclusão que a Bolsa de Valores serve tão somente para transferir riquezas dos trabalhadores e pequenos acionistas para “determinado capital financeiro”. Virá reforçar ainda mais tal sustentação a hipótese de que o “moderno capitalismo bursátil” equipara-se a um oligopólio, como veremos na segunda parte do presente trabalho. 

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