sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Anexo “2”: 

A diferença entre o “preço de mercado” e o “valor intrínseco” 

Permite-nos ilustrar a grande diferença que geralmente existe entre o “preço de mercado” e o “valor fundamental”, a leitura do seguinte fragmento de texto encontrado na literatura técnica: 

[...] Aussi informative que soit cette approche globale, ce n’est qu’en considérant au cas par cas la manière dont la bourse a analysé telle ou telle situation spécifique qu’on prend véritablement toute la mesure des dysfonctionnements qu’a connus cette période. Considérons le marché du jouet au détail, dominé au début des années 90 par la très ancienne et vénérable entreprise Toys « R » Us. Cette domination est brutalement contestée par la toute jeune entreprise eToys, créée en 1997, qui mise sur le développement du commerce en ligne pour arriver à ses fins. (63) 

[...] Si l’on compare objectivement ces deux entreprises, on observe, d’un côté, une entreprise forte d’un savoir-faire et d’une expérience indéniables, réalisant en 1998 un chiffre d’affaires de plus de 11 milliards de dollars dans 1156 magasins pour un profit de 376 millions de dollars et, de l’autre côté, une entreprise sans expérience dont le chiffre d’affaires, cette même année, se monte à 30 millions de dollars pour une perte de 28 millions. Autrement dit, eToys représente l’équivalent financier de trois magasins de Toys « R » Us et fait des pertes quand son concurrent fait des profits. En dépit de ces données, à la fin de l’année 1999, eToys était évalué en bourse 1/3 de plus que le géant américain du jouet! Pour que le marché estime de manière aussi surprenante la valeur de ces deux firmes, il faut non seulement qu’il considère que l’avenir de l’économie est tout entier contenu dans le commerce électronique mais également que les anciennes firmes seront incapables de s’adapter à cette nouvelle donne. Les années suivantes prouvèrent que ces deux jugements étaient également erronés. eToys se déclara en faillite en mars 2001, son action ne valant plus que quelques cents, alors même que Toys « R » Us s’allia à Amazon pour développer avec succès son commerce en ligne. Cette histoire n’est en rien isolée. La croyance exacerbée dans les prodiges de la Nouvelle Économie a fait perdre aux investisseurs leur capacité d’analyser sereinement les situations des entreprises. (63) 

Traduzindo: 

[...] Por mais informativa que seja essa abordagem abrangente, é apenas ao considerarmos caso a caso, como a Bolsa de Valores avaliou essa ou aquela situação específica que realmente vamos perceber as disfunções que ocorreram nesse período. Considere o mercado de brinquedos de varejo, dominado no início dos anos 90 pela antiga e venerável empresa Toys "R" Us. Este domínio é abruptamente desafiado pela jovem empresa eToys, criada em 1997, que atua no desenvolvimento do comércio online para chegar aos seus fins. (63) 

[...] Se compararmos objetivamente essas duas empresas, observamos, de um lado, uma empresa com forte know-how e inegável experiência, realizando em 1998 um faturamento de mais de 11 bilhões de dólares em 1156 lojas para um lucro de 376 milhões de dólares e, de outro lado, uma empresa inexperiente cujo volume de negócios, nesse mesmo ano, ascende a 30 milhões de dólares para uma perda de 28 milhões. Em outras palavras, eToys representa o equivalente financeiro de três lojas da Toys “R” Us e faz perdas quando seu concorrente obtém lucro. Apesar destes dados, no final de 1999, eToys foi avaliada na Bolsa de Valores em 1/3 a mais do que a gigante de brinquedos dos EUA! [...]

[...] Para que o mercado tenha sido tão surpreendente quanto ao valor dessas duas empresas, é necessário não apenas que ele considerasse que o futuro da economia estaria inteiramente contido no comércio eletrônico, mas também que as empresas antigas não seriam capazes de fazer algo para se adaptar a esta nova situação. Os anos seguintes provaram que ambos esses dois julgamentos eram igualmente errôneos. eToys declarou falência em março de 2001, com suas ações valendo apenas alguns centavos, ao passo que Toys “R” Us firmou parceria com a Amazon para desenvolver com sucesso seu negócio online. Esta história não é isolada. A crença exacerbada nas maravilhas da Nova Economia fez com que os investidores perdessem a capacidade de analisar com serenidade as situações de negócios. (63) 

Pretendemos a seguir demonstrar que as ações de “eToys” tinham distinto “preço de mercado” e “valor intrínseco”. Neste sentido, selecionamos dois parágrafos do fragmento de texto acima, respectivamente, conforme se segue: 

[...] Apesar destes dados, no final de 1999, eToys foi avaliada na Bolsa de Valores em 1/3 a mais do que a gigante de brinquedos dos EUA! 

[...] Os anos seguintes provaram que ambos esses dois julgamentos eram igualmente errôneos. eToys declarou falência em março de 2001, com suas ações valendo apenas alguns centavos, ao passo que Toys “R” Us firmou parceria com a Amazon para desenvolver com sucesso seu negócio online. 

O contraste entre a inteligência contida nos dois fragmentos de texto, acima mencionados é inequívoco. Doravante iremos sustentar que a evolução dos preços no “hodierno capitalismo bursátil” se equipara a uma manipulação. Não obstante, por motivos tão somente didáticos iremos identificar o primeiro fragmento de texto como representativo do “preço de mercado”. Neste sentido, pensamos que a inteligência de tal fragmento de texto se equipara a inteligência do seguinte fragmento de texto encontrado na literatura técnica: 

[...] Tout dépend au fond de ce que l’on fait des revenus des actifs financiers. Tant que ceux-ci sont intégralement réinvestis, les patrimoines croissent en dehors de tout lien matériel avec la sphère réelle et l’écart peut potentiellement devenir infini. (45) 

Traduzindo: 

[...] Basicamente, tudo depende do que se faz com os retornos dos ativos financeiros. Desde que estes sejam totalmente reinvestidos, os ativos crescem fora de qualquer conexão material com a esfera real e a divergência pode potencialmente se tornar infinita. (45) 

Por outro lado, igualmente devido a motivos tão somente didáticos pensamos que o segundo fragmento de texto, se ajusta como luva ao conceito de “valor intrínseco”, ou realidade econômica. 
 

Em resumo, não nos parece equivocado sustentarmos que frente às extravagantes e desproporcionais valorizações alcançadas por certos títulos bursateis, exsurge um fator de conhecimento objetivo do futuro, pois tais valorizações virtuais contrariam a “lei do valor”. Como exemplo de tal observação, encontramos o caso de eToys antes apresentado. Consequentemente podemos dizer que o futuro, embora ainda continue a ser incerto, passa a ser probabilístico. 

Prosseguindo em nossa abordagem parece-nos oportuno relembrarmos algo que mencionamos na Introdução: o “hodierno capitalismo bursátil” não serve para avaliar os títulos bursateis. Neste sentido, os fundamentos para tal sustentação são encontrados no seguinte fragmento de texto selecionado da literatura técnica:

[...] Neoclassical economists believe that shares have an intrinsic (or, as it is more commonly said, fundamental) value that determines the movement of prices. The plausibility of this claim is far from obvious. Share prices exhibit chronically erratic movements, both upward and downward. How can this state of affairs be reconciled with the assumption of stable intrinsic value? Most economists, if they speak frankly, will acknowledge that variations in price cannot be explained in this way, at least not without arbitrarily introducing some additional number of equally implausible assumptions. Inevitably one thinks of the crash of October 19, 1987, when the Dow Jones Industrial Average lost 22.6 percent of its value, the largest drop ever recorded in the United States-and yet nothing even remotely comparable was observed in the real economy, before or after. (18) 

Traduzindo:


[...] Os economistas neoclássicos acreditam que as ações têm um valor intrínseco (ou, como é mais freqüentemente dito, fundamental) o qual determina o movimento dos preços. A plausibilidade desta afirmação está longe de ser óbvia. Os preços das ações exibem movimentos cronicamente erráticos, tanto para cima quanto para baixo. Como se pode conciliar este estado de coisas com a hipótese de um valor intrínseco estável? A maioria dos economistas, se falarem francamente, reconhecerá que as oscilações dos preços não podem ser explicadas desta forma, pelo menos não sem introduzir arbitrariamente um número adicional de suposições. Inevitavelmente se pensa no crash de 19 de outubro de 1987, quando o índice Industrial Dow Jones perdeu 22,6% de seu valor, a maior queda já registrada nos Estados Unidos - e, no entanto, nada mesmo remotamente comparável foi observado na economia real, antes ou depois. (18) 

Encontramos escrito no fragmento de texto acima que “[...] os economistas neoclássicos acreditam que as ações têm um valor intrínseco [...] o qual determina o movimento dos preços. A plausibilidade desta afirmação está longe de ser óbvia.” 

Reforça a inteligência contida no fragmento de texto acima, o seguinte fragmento de texto igualmente encontrado na literatura técnica: 

[...] Il faut en finir avec cette conception erronée qui trouve son fondement dans l’idée que le future pourrait faire l’objet d’une description objective ex ante, à la manière des hypothèses que retient le modèle Arrow-Debreu d’équilibre général. Sur une telle base, il est alors possible de calculer une vraie valeur, celle correspondant à l’espérance mathématique des profits futurs. Dans la réalité des économies capitalistes, cette hypothèse ne tient pas. Elle est même absurde.* 

* Et pourtant, c’est elle que retient toute l’approche formalisée (28) modern de la finance! 

Traduzindo: 

[...] Devemos pôr um fim a este equívoco, que se baseia na idéia de que o futuro poderia ser descrito objetivamente ex ante, da mesma forma que as suposições do modelo de equilíbrio geral Arrow-Debreu. Nesta base, é então possível calcular um valor verdadeiro, aquele que corresponde à expectativa matemática de lucros futuros. Na realidade das economias capitalistas, essa suposição não se sustenta. É mesmo absurda.*

* E ainda assim, é o que se mantém por toda a abordagem moderna formalizada das finanças! (28)


Adicionalmente, vai-nos permitir aprofundar um pouco mais na compreensão dos dois fragmentos de texto imediatamente antes apresentados, o seguinte fragmento de texto encontrado na literatura técnica: 

[...] La « bulle Internet » a montré à quel point les évaluations boursières pouvaient se déconnecer de la réalité économique. Quant à la fonction de financement, rappelons qu’aux États-Unis, durant cette même période (1995-2000), l’émission nette d’actions est restée négative, principalement en raison des importants programmes de rachats de titres, alors même que le marché financier exerçait une influence dominante sur les firmes et sur tout le développement économique ! A tout le moins, ce fait prouve que la puissance du marché des actions a d’autres sources que le seul financement de (28) l’accumulation. 

Traduzindo : 

[...] A "bolha da Internet" mostrou como as avaliações do mercado podem se descolar da realidade econômica. Quanto à função de financiamento, deve-se lembrar que, nos Estados Unidos, durante o mesmo período (1995- 2000), a emissão líquida de ações permaneceu negativa, principalmente devido aos grandes programas de recompra de ações. Mesmo assim, o mercado financeiro exerceu uma influência dominante nas empresas e em todo o desenvolvimento econômico! No mínimo, esse fato prova que o poder do mercado de ações tem outras fontes além do financiamento da acumulação. (28) 

Todos os três fragmentos de texto, acima mencionados, são de autoria do economista francês, André Orléan. Concordamos integralmente com a inteligência contida em tais fragmentos de texto, mormente com importante afirmação feita por André Orléan no primeiro destes fragmentos, qual seja: “[...] a plausibilidade das ações terem um valor intrínseco está longe de ser óbvia.” 

Adicionalmente, acima podemos ler no último fragmento de texto que André Orléan sustenta que existem outras fontes do poder do mercado de ações, além do financiamento da acumulação. Tentar descobrir quais são estas outras fontes, será o próximo passo do presente trabalho. 

Neste sentido, iremos apresentar a seguir dois fragmentos de texto encontrados na literatura técnica. Em primeiro lugar, iremos apresentar um fragmento de texto encontrado na literatura técnica sobre o que vem a ser o conceito de “mais-valia”. Em segundo lugar, iremos registrar o surgimento no “hodierno capitalismo bursátil” de uma “dinâmica que leva o preço de mercado a viver sua própria vida e a evoluir independentemente do seu valor”: 

 [....] Le prix de l’action varie et on pourrait considérer que le bénéfice de l’actionnaire (ou sa perte) dépend essentiellement de sa plus–value, c’est–à–dire de la différence entre le prix de l’action au jour où il la vend et au jour où il l’avait préalablement acquise, auquel il faudrait ajouter, de manière accessoire, la valeur des dividendes perçus au fil des années. (52) 

Traduzindo: 

 [...] O preço da ação varia e pode-se considerar que o lucro (ou prejuízo) do acionista depende essencialmente de sua mais-valia, ou seja, da diferença entre o preço da ação no dia da venda e no dia da aquisição anterior, ao qual deve ser somado, ainda, o valor dos dividendos recebidos ao longo dos anos. (52) 

 [...] Une dynamique s’installe ainsi qui conduit le prix à « vivre sa propre vie », à évoluer de manière indépendante de sa « valeur » en fonction de sa tendance lue par les différents acteurs dans son évolution historique récente. L’inclination des intervenants à suivre la tendance qu’indique la tendance explique les phénomènes dits de « bulle financière » où le prix décolle, parfois pour des années, de la « valeur » définie comme valeur actuelle des dividendes futurs, manifestant la persistance d’un excès d’acheteurs par rapport au nombre des vendeurs. Inversement, lorsque la tendance s’amorce à la baisse, le même effet de renforcement peut (52) conduire au krach.


Traduzindo: 


[...] Assim, se estabelece uma dinâmica que leva o preço a "viver sua própria vida", a evoluir independentemente de seu "valor" de acordo com a tendência lida pelos diferentes atores em sua recente evolução histórica. A inclinação dos jogadores em seguir a tendência que a tendência indica explica o chamado fenômeno da "bolha financeira" onde o preço se descola, às vezes durante anos, do "valor" definido como o valor presente dos dividendos futuros, mostrando a persistência de um excesso de compradores em relação ao número de vendedores. Inversamente, quando a tendência começa baixar, o mesmo efeito de reforço pode levar a um colapso. (52) 

Por meio da leitura e interpretação dos dois fragmentos de texto acima não nos parece equivocado sustentarmos que pode existir uma transgressão da economia produtiva por meio da obtenção de uma “mais-valia” por somente alguns poucos participantes do mercado. Tal particularidade é conseqüência da “dinâmica que leva o preço de mercado a viver sua própria vida e a evoluir independentemente de seu valor”. Por seu turno, a existência de tal relacionamento perverso vai-nos permitir apresentar nossa resposta a certo questionamento freqüentemente encontrado na literatura técnica: por que surgem as “bolhas especulativas” no “moderno capitalismo bursátil”? 

- Em apertada síntese, a nossa resposta ao questionamento acima se encontra na seguinte sustentação: “[...] as bolhas especulativas viabilizam uma transferência de riquezas entre distintos participantes do mercado.” 

Ademais, iremos afirmar mais uma vez que a acima mencionada transferência de riquezas é materializada por meio da obtenção de uma “mais- valia” por alguns poucos participantes do mercado. Por seu turno, doravante iremos sustentar que a obtenção desta “mais-valia” é uma das fontes do poder do mercado de ações, além 
do financiamento da acumulação. 

Em outros termos, a “mais-valia” obtida se equipara em grande parte a um ganho financeiro, como podemos constatar por meio da leitura do conceito de “mais-valia”, antes mencionado. Entretanto, igualmente antes concordamos com a sustentação de Orléan de que o “hodierno capitalismo bursátil” não serve para avaliar os títulos bursateis. Por seu turno, a associação entre si destas duas afirmativas nos permite sustentar que o “hodierno capitalismo bursátil” se equipara a uma “pirâmide financeira”. Adicionalmente, um ponto importante no sentido de conhecermos a futura tendência dos mercados bursateis pertence ao conhecimento comum: as “pirâmides financeiras” têm um limitado tempo de vida. Logo, como estamos equiparando o “hodierno capitalismo bursátil” a uma “pirâmide financeira” o “moderno capitalismo bursátil” igualmente tem um tempo de vida limitado. Igualmente, a “conspiração” é ligada ao tempo. Assim, é do “conhecimento comum” que toda “conspiração” depois de revelada tende a deixar de existir.

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